EM TEMPO DE “FAKE NEWS” TODO CUIDADO É POUCO

Acompanhando as redes sociais noto o quão dissimulados estão os meios de comunicação. Em tempos de “fake News” todo cuidado é pouco. Exemplo disso foram os milhares de compartilhamentos acusando o candidato a Vice Presidente da República de ter afirmado, em sua palestra, que “família sem pai e sem avô é fábrica de elementos desajustados”.   Outros post’s sugerem que família composta por mãe e avó é fábrica de desajustados para o tráfico.

É brutal a vigarice, a deslealdade e a má fé como os meios de comunicações distorcem as falas e fomentam o pensamento errôneo dos menos esclarecidos ou desavisados. Simplesmente colhem fragmentos descontextualizados de certas falas e a partir deles criam um cenário deturpado, transformando, muitas vezes, a pessoa bem intencionada num vilão mau caráter.

Ao pesquisar sobre a palestra proferida, o citado candidato abordava questões atinentes à segurança pública e falava sobre a cooptação de jovens pelo tráfico de drogas. Disse ele: “Família sempre foi o núcleo central. A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”.

A descontextualização induz ao pensamento de que ele agride moralmente aquelas famílias cujo esteio repousa sobre os ombros de uma mãe ou uma avó. Contudo não foi isso que foi dito. Houve, por parte do Candidato, o reconhecimento de que a ausência dos pais (homens), sem citar os motivos, sobrecarregam os lares ao ponto de repousar na Mãe ou na Avó a responsabilidade pela educação, cuidado e alimentação dos infantes. Todavia, dada a necessidade de sair em busca do sustento, as crianças crescem livres e suscetíveis ao acolhimento pelo narcotráfico, o qual, diga-se de passagem, cresceu brutalmente nos últimos anos e sempre tendo como seus combatentes crianças e adolescentes, jovens carentes e iludidos pela ascensão social fácil acabam enxergando na criminalidade o caminho fácil e natura para tal fim.

O Candidato ao abordar o assunto não trouxe nada de novo sobre o tema. Ele apenas replicou aquilo que já foi dito por outras ilustres personalidades, como o ex Presidente Americano Barack Obama ou o médico Dráuzio Varella. Segundo Obama (2008), estatísticas apontam que “crianças que crescem sem pai têm cinco vezes mais chances de viver na pobreza e cometer crimes; nove vezes mais chances de abandonar a escola e vinte vezes mais chances de acabar na prisão.” Por sua vez, Dráuzio Varella (2007) afirmou que “Na periferia de qualquer cidade brasileira, não tem homem em casa: (eles) fazem filhos e não têm nenhuma responsabilidade. Ficam as crianças com a mãe, dependente da avó, porque a avó também não tem mais marido: desapareceu, foi morto ou trocou ela por uma jovem. Você tem uma desestruturação familiar que é total.”

Agora a pergunta que não quer calar: onde estão os post’s vociferando a respeito? Logicamente que não há, posto que não foi um General que falou. É preciso reconhecer que estamos vivendo um momento de trevas, onde abordar a realidade e de uma forma desvelada é agressivo a quem defende o “politicamente correto”, a subversão dos valores sociais e a instabilização das famílias.

É preciso reconhecer que a sociedade brasileira, nos últimos anos, foi apunhalada naquilo que lhe era mais essencial: a família. O poder familiar se esvaiu, assim como se esvai a areia por entre os dedos. Inúmeras leis interferiram fortemente no seio familiar ao ponto de suprimir dos pais o sacro direito de corrigir seus filhos ou filhas. Legiões de psicólogos pregaram o mantra de que criança não pode receber um “NÃO”, sob pena de ser afetado psicologicamente; nas escolas, nem mesmo a correção de erros com tinta vermelha foi mais possível e reprovar de ano se tornou um pecado mortal. Esses são alguns dos inúmeros exemplos que contribuíram para criar indivíduos que tudo pode e tudo faz, sem sofrer as consequências naturais dos erros cometidos.

Sob o excesso de liberdade forjamos uma sociedade instável, onde alguns indivíduos são incapazes de assumir e honrar compromissos. Formamos pessoas descompromissadas e amantes da vida livre, tanto que um grande número de homens, simplesmente, cumpriu com os desígnios reprodutivos e nada mais. Não raro são os lares onde a Mulher, sozinha, carrega o fardo de educar e proteger seus filhos.

Analisando a fala do candidato Hamilton Mourão, relembro da minha infância junto como meus quatro irmãos e somente agora minhas vendas caem. Percebo o quão importante foi a presença do meu Pai para minha formação e dos meus Irmãos.

Como a maioria das famílias brasileiras a minha também é de procedência humilde. Ao meu Pai coube a ancestral tarefa de prover o lar e à minha mãe o mister de nos educar e nos colocar na linha. Como quaisquer jovens da periferia, flertarmos com todo tipo de mazela e até oportunidade para consumir entorpecentes e traficar apareceu. Todavia, a estrutura familiar sempre nos conduzia ao caminho da retidão.

À minha Mãe cabia o dever de impor disciplina e quando ousávamos enfrenta-la ou subjugar seu mando, coisa natural de todo e qualquer jovem que testa os limites na busca da autoafirmação, ao meu Pai cumpria o dever de restabelecer a ordem natural. Graças a esta rigidez e a sua presença, aprendemos a reconhecer o poder de uma autoridade superior e à ela devotar nosso mais sublime respeito. Em razão disso, aprendi os primeiros fundamentos de uma sociedade politicamente organizada e que se mantém sob a égide da mão invisível do Estado.

Jovens que não reconhece em seus pais o poder familiar ou a eles não devota o seu sincero respeito, fatalmente serão cidadãos desajustados, com forte tendência a enfrentar as autoridades legitimamente constituídas.

Então meus Caros, vamos cuidar com aquilo que propagamos, pois podemos estar sendo utilizados como propósitos outros e incompatíveis com nossos valores. Em tempo de “fake News” a dissimulação é constante e a possibilidade de passarmos por idiotas é imensa.

 Informações Sobre o Autor:

Miqueas Liborio de Jesus.

Auditor Fiscal do Município de Joinville (03/1998), ex Membro julgador da Junta de Recursos Administrativo-Tributários do Município de Joinville, Professor das cadeiras de Direito Tributário I e II, do Curso de Direito da Associação Catarinense de Ensino (ACE), Bacharel em Ciências Jurídicas (Direito), pela Universidade da Região de Joinville (Univille), aprovado no exame da OAB em 2006 e especialista em direito tributário pela FGV.

 

4 Comentários

  1. Cláudia Aguiar disse:

    Adorei o texto! Super isento e esclarecedor. Gostaria de compartilhar com todos os meus amigos!

  2. JOAO VICTOR SANTOS NOGUEIRA disse:

    Melhor texto que li nos últimos dias. Parabéns… Vou compartilhar no Twitter… Forte abraço. @jvsnogueira

    • miqueasliborio disse:

      Prezado João Victor,

      Grato pelo comentário e pelas lisonjeiras palavras.
      Sinta-se à vontade para compartilhar.

      Um forte e fraterno abraço.

      Miqueas Liborio de Jesus

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